Caso de prefeita na Califórnia expõe como regimes autoritários atuam por influência, propaganda e ocupação silenciosa de espaços de poder
A renúncia de Eileen Wang, prefeita de Arcadia, na Califórnia, após ser acusada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos de atuar como agente ilegal da República Popular da China, não é apenas uma notícia local americana. É um alerta internacional. Segundo o DOJ, Wang aceitou se declarar culpada por agir nos Estados Unidos como agente de um governo estrangeiro sem comunicar oficialmente as autoridades americanas, crime que pode resultar em até dez anos de prisão.
O caso expõe uma realidade incômoda: a China não atua apenas por meio de comércio, investimentos e diplomacia formal. O regime comandado pelo Partido Comunista Chinês também é acusado, em diferentes países, de usar redes de influência, propaganda, pressão política e aproximação institucional para ampliar seu poder fora de suas fronteiras. No caso de Wang, promotores apontaram atuação ligada à divulgação de conteúdos favoráveis a Pequim e à administração de estrutura usada para publicar material político alinhado a interesses chineses.
É nesse ponto que o Brasil precisa olhar com mais atenção para a aproximação acelerada entre o governo Lula e Pequim. A relação comercial com a China é importante e não pode ser tratada de forma simplista. A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, as exportações brasileiras para o país asiático chegaram a cerca de US$ 100 bilhões, impulsionadas por soja, carne bovina, açúcar, celulose e outros produtos.
Mas o problema não está apenas em vender para a China. O risco começa quando uma relação econômica necessária se transforma em dependência política, tecnológica, diplomática e estratégica.
O governo Lula costuma apresentar essa aproximação como defesa do multilateralismo, do Sul Global e de uma nova ordem internacional. Em discurso diplomático, parece uma estratégia de autonomia. Na prática, porém, o Brasil se aproxima cada vez mais de uma potência governada por partido único, sem imprensa livre, sem alternância real de poder e com histórico de repressão a críticos, minorias religiosas e opositores. A Human Rights Watch afirma que autoridades chinesas restringem sistematicamente liberdades de expressão, associação, reunião e religião.
A fragilidade política de Lula torna esse movimento ainda mais sensível. O presidente tenta se apresentar como líder global, articulador entre potências e defensor da soberania dos países em desenvolvimento. Mas a realidade mostra um governo pressionado internamente, dependente de narrativa externa, com baixa margem econômica, desgaste político e necessidade permanente de produzir símbolos de força. Nesse cenário, a China aparece como parceira conveniente: compra, investe, oferece palco diplomático e reforça a ideia de que o Brasil pode desafiar os Estados Unidos e o Ocidente liberal.
O perigo é que essa aproximação não vem sem preço.
Em 2024, Lula e Xi Jinping elevaram a relação bilateral e firmaram acordos em áreas como infraestrutura, energia e agronegócio. Em 2025, os dois governos voltaram a ampliar entendimentos em comércio e investimentos. Em janeiro de 2026, Xi afirmou que a China estaria ao lado do Brasil em tempos “turbulentos”, enquanto Lula reforçou a defesa de maior cooperação bilateral e do papel dos BRICS.
A pergunta que fica é simples: até que ponto essa parceria é comercial e a partir de que ponto passa a influenciar decisões estratégicas do Estado brasileiro?
O Brasil tem commodities, território, água, energia, alimentos, minerais e posição geopolítica decisiva. Para Pequim, isso não é apenas mercado. É segurança alimentar, influência diplomática e presença estratégica na América Latina. O aumento dos investimentos chineses em setores como energia, mineração, veículos elétricos, tecnologia e logística mostra que o interesse vai muito além da compra de soja. Em 2025, o Brasil se tornou o principal destino global de investimento chinês, segundo dados citados pela Reuters.
Esse avanço precisa ser discutido sem ingenuidade.
A China é uma potência econômica, mas também é um regime autoritário. Quando um governo brasileiro se aproxima politicamente de Pequim enquanto relativiza críticas ao modelo chinês, o país corre o risco de importar não apenas capital, mas também práticas de controle, vigilância, propaganda e concentração de poder. Não se trata de afirmar que o Brasil já vive uma ditadura chinesa. Trata-se de observar sinais, padrões e riscos institucionais.
O caso da ex-prefeita de Arcadia mostra que a influência chinesa pode operar em escala local, comunitária e política. Não começa necessariamente com tanques, tratados militares ou grandes rupturas. Pode começar com narrativas, sites, financiamento indireto, redes de relacionamento, autoridades simpáticas, empresários, universidades, tecnologia e ocupação silenciosa de espaços públicos.
No Brasil, o alerta deve ser ainda maior porque o ambiente institucional já vive tensão permanente. Há conflito entre poderes, debate sobre censura nas redes, pressão sobre plataformas digitais, disputa por controle da informação e um governo que frequentemente trata crítica política como ameaça à democracia. Quando esse ambiente interno se combina com admiração declarada por modelos de “governo forte”, o sinal amarelo precisa acender.
Lula já elogiou a força política do Partido Comunista Chinês em entrevistas anteriores, destacando a capacidade de governo e planejamento da China. O ponto crítico não é reconhecer eficiência econômica. O problema é ignorar que essa eficiência vem acompanhada de censura, repressão e ausência de liberdade política.
O Brasil precisa negociar com a China, mas não pode se submeter à China. Precisa vender, comprar, atrair investimento e manter relações diplomáticas maduras. Mas isso deve ocorrer com transparência, limites institucionais, proteção de dados, defesa da soberania nacional e vigilância sobre setores estratégicos.
A lição que vem da Califórnia é clara: regimes autoritários não dependem apenas de embaixadas para atuar. Eles influenciam, seduzem, financiam, aproximam e normalizam sua presença. Quando a sociedade percebe, a fronteira entre parceria econômica e captura política pode já estar borrada.
No caso brasileiro, o risco não está apenas em Lula conversar com Xi Jinping. O risco está em o governo brasileiro transformar essa relação em eixo preferencial de poder, enquanto apresenta ao público apenas o lado comercial e esconde o custo político de se aproximar de uma ditadura sofisticada, rica e paciente.
A China pensa em décadas. O Brasil, muitas vezes, pensa na próxima crise. Essa diferença, por si só, já deveria preocupar.