Por Geo D’Anjos
Coluna Giro Fama | Olho na Mídia
abril 27, 2026
A movimentação em torno de Xuxa Meneghel nos bastidores da TV Globo deixou de ser discreta e passou a chamar atenção de quem acompanha o jogo real da televisão. Não é apenas presença ocasional — é recorrência. E, nesse ambiente, recorrência nunca é por acaso.
Nos últimos meses, o nome da apresentadora voltou a circular com força em programas da casa, seja por citações, referências ou inserções indiretas. O tipo de exposição que, para o público comum, pode parecer espontânea, mas que, nos bastidores, costuma indicar construção. E quando há construção, há intenção.
O episódio envolvendo Ana Paula Renault reforçou essa leitura. O presente especial dado por Xuxa, nos bastidores do “Domingão com Huck”, rapidamente ultrapassou o campo da curiosidade e ganhou peso simbólico. Não foi apenas um gesto — foi uma sinalização. Em televisão, gestos expostos no momento certo funcionam como recado. E recado, ali dentro, raramente é gratuito.
Ao mesmo tempo, atrações como o “Tô de Graça” e outros conteúdos da emissora seguem trazendo o nome de Xuxa como referência constante, mantendo sua imagem ativa sem que ela precise estar oficialmente no ar. É presença calculada, é aquecimento de marca — é reposicionamento em andamento.
Nos bastidores, a leitura já não é mais tímida: existe, sim, a possibilidade concreta de um retorno estruturado, possivelmente com projeto próprio. Mas esse retorno, diferente de outros momentos da carreira, não acontece em um cenário neutro — e esse é o ponto que muda o jogo.
Nos últimos anos, Xuxa deixou de ser apenas um ícone do entretenimento para se tornar também uma figura de posicionamento. Suas declarações, alinhadas a temas sociais e políticos, dividiram opiniões e alteraram sua percepção pública. A apresentadora que já foi unanimidade passou a ser interpretada — e, em alguns casos, rotulada.
Em parte relevante do debate público, especialmente em setores mais críticos, sua imagem passou a ser associada a pautas identificadas com a esquerda. Essa leitura, reforçada por recortes, redes sociais e narrativas paralelas, não depende de confirmação oficial para ganhar força. Na prática, percepção consolidada pesa mais do que intenção declarada.
A própria Xuxa já tentou se afastar dessa polarização, adotando um discurso voltado à democracia e causas sociais sem vinculação ideológica direta. Mas, no cenário atual, isso nem sempre basta. A imagem pública já entrou no campo da disputa — e, uma vez lá, não volta ao estado neutro com facilidade.
É justamente por isso que qualquer movimento envolvendo seu retorno ganha outra dimensão. Trazer Xuxa de volta à Globo hoje não é apenas resgatar um nome histórico — é gerir um ativo que carrega narrativa, posicionamento e leitura política associada. O que antes era memória afetiva, agora também é interpretação.
Ao mesmo tempo, ignorar seu peso de mercado seria um erro estratégico. Xuxa continua sendo uma das marcas mais fortes da televisão brasileira, com reconhecimento imediato e capacidade de mobilização. É um ativo raro — mas que hoje exige mais cálculo do que nostalgia.
O que se desenha, portanto, não é apenas um retorno. É um teste. Um teste de equilíbrio entre imagem, audiência e leitura pública.
Porque a pergunta já não é mais se Xuxa pode voltar.
A pergunta real é: como ela volta — e para quem ela volta.
Em um cenário onde o público está mais dividido, mais reativo e mais atento a posicionamentos, cada movimento carrega consequência. E, na televisão atual, consequência vira audiência — ou rejeição.
Os sinais ainda não são oficiais, mas são claros para quem sabe ler bastidor.
E quando o bastidor começa a falar alto, dificilmente é apenas ruído.